Ir. Javier Riaño Bustamante

“O justo – o homem bom – florescerá como uma palmeira; brotará como cedro do Líbano, crescerá e se tornará grande…” (salmo 92)

No dia 29 de junho, familiares diretos, irmãos e sobrinhos, Irmãos lassalistas provenientes das mais diversas Comunidades, professores, pessoal não docente e amigos das duas comunidades portuguesas, Braga e Barcelos, juntaram-se em Bujedo (Espanha) para dizer o último adeus ao Ir. Javier. A cerimónia começou com a “Aleluia” de Handel, a pedido de Javier.

O Ir. Antolinez, provincial das comunidades de Irmãos idosos de toda a Península Ibérica, depois de lidas as leituras, dirigindo-se a todos os presentes na cerimónia fúnebre, começou com as palavras de um salmo: “a saudação que brota da minha boca e que me pede o coração recordando a Javier são as palavras do salmo 92: “o justo – o homem bom- florescerá como uma palmeira; brotará como cedro do Líbano, crescerá e se tornará grande.” Este é o perfil humano e espiritual que Javier nos deixou. Bom, trabalhador, próximo dos pobres, pai e mãe dos meninos e meninas que solicitavam o seu carinho em S. Caetano. Sem dúvida que cresceu entre nós como um cedro do Líbano!”

“Não pode ter acontecido, dizíamos nós, uns aos outros!” – ontem no hospital de S. Francisco ao receber a notícia da sua morte. Claro que é difícil aceitar que já não esteja connosco, porque ele era pura vitalidade, era frescura no trato, era afabilidade derramada, linguagem direita, palavra sincera, facilitador da convivência, entusiasta nas decisões… e pessoas assim as consideramos como necessárias e imprescindíveis nas nossas vidas e ao nosso lado.

Para esta ocasião, estou convencido de que Javier hoje recordar-nos-ia no seu talante sarcástico: “não digais muitas coisas no meu funeral, simplesmente que fui um lassalista, Irmão, por isso adoro em tudo a vontade de Deus para comigo… incluindo neste duro aceitar o cálice de dor e a lenta doença que me brindou nestes últimos anos”.

E sem dúvida nos recordaria com um sorriso pícaro: “vós que me deste a alcunha de “Demolidor”, quero que saibais que no meu dia-a-dia… tudo o que demoli, levantei, reconstrui, edifiquei não foi trabalho meu, senão obra de Deus que sempre me acompanhou com ternura e firmeza na minha vocação.”

Javier conseguiu unir, fortalecer, acalmar e relativizar quando era necessário, as relações entre as pessoas. Que simpatia despertava à sua volta, em todos os âmbitos de relação nos quais se movia: entre os alunos, com os quais soube equilibrar a firmeza de pai e a ternura da mãe; entre os Irmãos, e não podemos esquecer que um dos serviços que mais desempenhou na sua vida foi precisamente o de ser diretor da Comunidade, animador da vida, da missão, da espiritualidade dos Irmãos, uma tarefa fundamental que viveu com simplicidade, proximidade e simpatia; entre os associados e os lassalistas, o seu telemóvel estava cheio de muitíssimas mensagens de admiração de dor e esperança de muitos companheiros; entre a sua própria família, de quem se mostrava orgulhoso e a quem se sentiu sempre tão unido.

Antolinez, partindo da mensagem da primeira leitura, carta de Paulo, onde nos fala do dom que Deus nos concedeu para construir como experto arquiteto o edifício da evangelização no mundo e na Igreja, facilmente a conectou com Javier, o Busta, trabalhador incansável, sempre colocando os cimentos da fé por todos os lugares que passou. Sempre de acordo com os planos de Deus, Javier usou materiais para edificar a fé e a cultura nas crianças e nos jovens que educou, executando com mestria a “obra de Deus” com uma esmerada dedicação.

Também a mensagem do Evangelho de João se adaptava perfeitamente a Javier: pôr cimentos, construir e edificar casas nos diversos lugares onde trabalhou. Estamos convencidos que Deus lhe pagará com a mesma moeda e lhe terá proporcionado um lugar na casa de seu Pai e nosso Deus. Como prometeu aos seus discípulos, veio para o levar, porque onde Jesus está quer que estejam também os seus seguidores. E Javier foi um dos que fielmente o seguiu no caminho e por isso é merecedor do galardão prometido.

Partindo de uma frase do filósofo Albert Camus: “a questão mais premente do nosso tempo e de cada homem é descobrir onde está a sua casa”, Antolinez deambulou sobre a importância dessa construção, porque a nossa casa somos nós próprios. Cada homem não só tem pela frente o desafio e a tarefa de descobrir um lugar… como também o inexorável dever de descobrir – vivendo com paixão e sabedoria – a construção de si mesmo: um processo lento e aberto que se vai efetuando ao longo da vida.

Certamente Javier esmerou-se na construção da sua própria casa, a qual, hoje, é digna de ser visitada. Todos aqueles que por ele tínhamos um elevado apreço estamos orgulhosos do edifício da sua vida. Fê-lo com a simplicidade de quem sabe que aquilo que faz com a mão direita não tem porque ser conhecido pela mão esquerda.

Por detrás desses trabalhos de “demolição”, com os quais se especializou, colocou uns cimentos humanos na sua existência com materiais marcados por uns gestos de humanidade extraordinários: amabilidade, serviço, bom trato, coração amplo que o ajudaram a levantar os diversos pisos onde iria habitar.

O rés-do-chão construiu-o numa clave lassalista. A educação, a missão, a escola que admirava nas pessoas dos seus professores Irmãos que lecionavam em Corrales de Buena. S. João Batista de La Salle, a quem sempre admirou e estudou afincadamente e o explicou e o apresentou a alunos aspirantes, postulantes e noviços no tempo em que foi formador. Os seus Irmãos idosos de Bujedo diziam admirados: “ quanto sabe sobre la Salle; com as suas palestras faz com que ainda admiremos mais o nosso Fundador”. E com ele estará gozando no céu, unido na celebração do seu Tricentenário.

Os aposentos do primeiro andar da sua casa têm a claridade interior de quem se compromete a ser pobre, amigo dos pobres, servindo-os. Por isso esta manhã os rapazes e raparigas de S. Caetano, a quem entregou grande parte da sua vida, se sentiam de luto e ressaltavam nas suas mensagens o privilégio de terem vivido com um Irmão que se tinha entregado completamente a eles.

Outro piso da sua casa, o segundo, foi planificado com esboços e apontamentos muito bem pensados e que cuidou com muito zelo: foi o lugar da Formação lassalista e dos formandos. Professor do Aspirantado (Arcas Reales), subdiretor do Noviciado (Griñón); diretor do Postulantado em Beirut (Líbano). Sabia a importância de acompanhar, corrigir, alentar e sobretudo predicar a partir do seu próprio exemplo.

Na sua ânsia de servir, atreveu-se – com esta decisão e valentia com que vivia todas as coisas – a dar o salto. Deixar a sua terra, marchar a terras estranhas, sentir-se missionário e evangelizador “naquele país” – como denominava com seu proverbial gracejo, ao Líbano. Um piso que lhe ensinou a valorizar o diferente, conhecer outras culturas, religiões e estilos sociais diferentes. Também aqui aprendeu a relativizar, a viver com o essencial, a despojar-se de si mesmo.

Deus lhe ofereceu só um ano, curto mas fecundo, para rematar a sua casa com o último piso. O cuidado e acompanhamento dos Irmãos Idosos da comunidade de Bujedo como Diretor. Como costumava repetir, foi um ano para devolver o que tinha recebido, agradecer a dedicação e a fidelidade, acompanhar a dor desde o exemplo que os Irmãos nele tinham.

E a sua casa esteve sempre segundo os parâmetros do Evangelho. Javier, homem sábio e prudente, pôs os alicerces sólidos. Trabalhou duro para tirar os escombros, o barro, a areia movediça… até encontrar a rocha sólida como o seu fundamento: Deus e só Deus!

Vida e obra

Javier nasceu no dia 3 de junho de 1954 em Corrales de Buena (Cantábria). Os seus pais, José António e Glória, educaram os seus três filhos com o carinho e a exigência que o tempo requeria. Orgulhoso da sua terra e dos seus habitantes. Em 1966 inicia o seu aspirantado em Bujedo. Em 1971, o postulantado em Arcas Reales; em 1973 o noviciado em Bujedo; em 1973, o noviciado no Cañón – Tejares (Salamanca). Começa a sua função de docente no colégio Nossa Senhora de Lurdes em Valladolid entre 1976-1979. Foi depois, durante dois anos, formador no Aspirantado de Arcas e em 1981 começa o seu trabalho como educador em S. Caetano (Braga- Portugal)

Deixou Portugal para tirar o curso de Ciências Teológicas e Catequéticas em S.Pio X, Madrid, exercendo, ao mesmo tempo, o cargo de diretor daquela comunidade de jovens Irmãos estudantes.

Depois de um ano de formação em Roma em 1989, os superiores mandam-no a Griñón (Madrid) como subdiretor do noviciado interdistrital.

De 1993 – 1995 teve a sua aventura missionária no Líbano, para regressar novamente a Portugal. Em Barcelos como professor e educador cinco anos e em S. Caetano 18 como educador e diretor da Comunidade.

Em 2018 foi nomeado diretor de Bujedo, ao mesmo tempo que procurava tratar a sua própria doença.

Desde fevereiro as consultas e tratamentos oncológicos no sanatório de S. Francisco de Assis de Madrid, tomaram um cariz periódico e frequente. Exemplar a sua paciência, o humor com que contava as suas peripécias médicas… e a resignação e a aceitação das dores provocadas pela sua doença.

Realmente nestes últimos anos da sua vida, especialmente nos últimos meses, quem se aproximava e falava com Javier para lhe perguntar pela sua saúde, tinha a impressão de que era Javier quem oferecia a esperança e o consolo. Por isso, não é de estranhar, que até ao último momento, tenha despertado tanta admiração.

Fomos favorecidos com um testemunho de vida admirável, experimentamos uma imensa gratidão, por isso, sofremos uma dor enorme pela sua perda, só superado pelo consolo de saber que Javier já não sofre e desfruta junto do Pai… e depois de tantas palavras, sentimos a profunda sensação de que o mais importante habita a linguagem do silêncio, como aquele que Javier guardava nestes últimos dias, quando se agarrava ao rosário e, em silêncio, seguia pondo a sua vida nas mãos do Senhor.

 

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