“Você sabe que os homens bons não morrem…”

No dia 15 de junho, realizou-se em Bujedo o funeral do Ir. Francisco Iglésias, que falecera em Arcas Reales, Valladolid, aos 93 anos de idade. Fundador do colégio La Salle de Barcelos, diretor, professor, secretário, o Ir. Iglésias viveu parte da sua vida em Portugal. Uma cerimónia simples, uma eucaristia de ação de graças por tudo o que ele fez em prol da educação, concretamente dos mais pobres, que decorreu no Monastério de Santa Maria de Bujedo. Para além de alguns familiares, marcaram presença muitos Irmãos das diversas comunidades e uma delegação das comunidades de Barcelos e Braga: Irmãos, funcionárias de S. Caetano e um antigo aluno e professor de Barcelos. É no Monastério de Santa Maria de Bujedo que a Congregação dos Irmãos tem o cemitério onde são depositados os restos mortais daqueles que morrem.

O Ir. Antolinez, provincial de todas as Residências de Espanha que apoiam os Irmãos na terceira idade, proferiu a homilia da Eucaristia realçando as qualidades do Ir. Francisco Iglésias à luz das leituras bíblicas escolhidas para o momento.

 

Homilia feita pelo Ir. Antolinez

Estimados sacerdotes celebrantes, familiares do Ir. Francisco Iglésias, Irmãos, lassalistas e amigos, que a paz de Jesus, que supera todo o conhecimento e desejo, permaneça nos vossos corações.

S. Paulo, na sua Carta aos Filipenses, exorta-nos e recomenda-nos a realçar nas nossas vidas tudo o que há de nobre, de justo, de puro, de amável, de simples, de verdade…

É justamente nisto que se resume a longa vida do nosso Ir. Iglésias: ele viveu a sua vocação de Irmão atendendo com esmero a todos, fazendo transparecer a virtude e outras coisas dignas de elogio. “Tende-o em consideração – repete-nos S. Paulo – pois essa é a vocação a que fostes chamados!”

O evangelho dá-nos a clave de uma existência plena como a que teve o nosso Irmão num longo período de 93 anos, na qual deixou-se guiar por essa simplicidade, pela naturalidade, franqueza, por uma pretendida e oferecida ingenuidade, pela ternura e a espontaneidade que Jesus pede aos seus discípulos, virtudes estas que o Ir Iglésias exercitou junto dos seus educandos, dos seus pequeninos e das suas pequeninas em toda uma vida de entrega generosa e fecunda, quer no Colégio de São Caetano, em Braga, quer no Colégio Missionário e posteriormente La Salle, em Barcelos, ambos em Portugal.

Viveu aspirando a simplicidade de Jesus… até que os seus pulmões debilitados, as suas pernas inchadas e cansadas e o seu coração lento disseram: Basta!

Todo o bem que ele fez aos meninos, aos pobres, aos órfãos o levaram ao céu. E ele sentia, nestes últimos meses, que João Batista de La Salle, seu fundador o esperava neste ano do tricentenário para apertá-lo ente os seus braços e devolver-lhe os muitos abraços que ele se fartou de dar aos preferidos do Senhor.

VIDA E OBRA

Nasceu o Ir. Francisco Iglésias no dia 28 de dezembro de 1925 na aldeia de Carracedo na província de Pontevedra, no seio de uma família cristã e piedosa, onde Manuel e Manuela, seus pais, receberam entre admiração e gozo os cinco filhos com que Deus abençoou aquela união. Iglésias foi o terceiro.

Galiza, a sua terra natal, a qual ele sempre amou, honrou e cantou em verso, hoje sente-se orgulhosa pelo filho que gerou. Como diz um célebre escritor galego: “Não se escolhe ser galego, tem-se a sorte de o ser!”

Com a “morriña”, a saudade, que vai sempre na mala do galego emigrante que sai da sua terra, Francisco, aos 13 anos, toma o mesmo caminho que outros muitos amigos e paisanos da sua freguesia e ruma em direção a Bujedo, com os Irmãos de La Salle. Ali inicia a sua formação de Irmão que abraça desde 1938 a 1943: Noviciado menor, postulantado, noviciado e escolasticado.

A similitude da sua língua materna, o galego, com o português fez com que os Superiores pensassem nele para expandir a obra lassalista em Portugal. Desde 1944 até 2013 Portugal será o seu único destino: primeiro no Colégio dos Órfãos de Braga como educador, depois em Barcelos como vice-diretor e diretor do Aspirantado, mais tarde Leiria, como diretor do Noviciado em Portugal. Toda a sua vida foi de uma entrega sem medida e sempre confiando na ajuda da providência, que não deixa de dar o cêntuplo a quem tudo faz pelo Reino.

Pessoa versátil, tanto fazia de diretor, como coordenador das tarefas agrícolas, adquirindo fama de bom vendedor de fruta e de vinicultor. Tudo era feito para angariar fundos para dar de comer a uma centena de rapazes que dependiam unicamente dos Irmãos.

Dotado de autoridade natural, sentido comum e humildade, tinha a palavra exata, o gesto sóbrio; tudo isso envolto numa certa cordialidade.

Entre 1960 e 1986, foi diretor em Braga, depois em Barcelos, diretor dos aspirantes, volta a Braga e regressa novamente a Barcelos para constituir a equipa que iria criar o projeto educativo do colégio La Salle, substituindo o Ir. Martinho Corral. Para além da direção da escola, lecionou francês, música e canto.

Os últimos anos, desde 1986, mais de vinte, a obediência o levou novamente a Braga, onde se dedicou, com alma, vida e coração ao trabalho de secretaria, à animação da liturgia e das festas, especialmente nos aniversários das comunidades, dos professores e dos educadores. A sua inesgotável veia poética e teatral revelaram-se como um tesouro ao serviço das comunidades e dos colégios. Qualquer pedido de alguns versos ou de um soneto tinha a resposta rápida, deixando um trabalho com qualidade.

O Ir. Iglésias sabia expressar bem os sentimentos, colocando afeto, graciosidade e uma elegante e fina ironia em cada palavra e em cada frase, mostrando-se, assim, próximo da realidade e da história de cada um.

A sua vida vai-se debilitando pouco a pouco: desde 2012 a CHME de Arcas Reales , Valladolid, o recebe com braços abertos. Antes disso, só dois breves espaços formativos: Avignon para receber o diploma de professor de Francês e Bodiguera para seguir o segundo Noviciado.

Ele era assim: venerava a sua terra, sentia um grande carinho pela sua família; era extremamente otimista, nenhuma queixa nos seus lábios, poeta e prosista em cada aniversário dos seus Irmãos e em cada acontecimento institucional, graciosidade, sentido de humor, paciência concentrada, sorriso contagiante e amizade sem limites.

Todos aqueles que disfrutaram da sua companhia e fizeram parte da sua comunidade ressaltam especialmente “o encanto da sua simplicidade”. Poderíamos dizer que a sua vida foi um constante elogio à simplicidade. Como ele reconhecia “Aunque apenas tuve estúdios, ni títulos, ni categorias… pero Dios me dio la gran suerte de salir airoso de todo lo que los superiores me prepusieron”. E quem o conheceu poderia acrescentar “e sempre com uma dedicação e espírito otimista”. A grandeza do homem simples: “FAZER O TRAJETO DA SUA VIDA SÓ COM O NECESSÁRIO”.

A simplicidade do Ir. Iglésias foi uma porta que ele abriu no seu coração para que Deus, seu criador, entrasse e passeasse nele como o seu Deus e Senhor. Por outro lado, também foi abertura do seu coração para os seus irmãos: no seu coração simples havia prontidão para perdoar. Por último foi abertura para todos, sobretudo, para os mais necessitados. Toda a sua pessoa desprendia ternura, sensibilidade e atenção.

Aproximou-se aos demais, desde a sinceridade da sua vida, partilhando o projeto comum de ser pessoa sem marcar distâncias, sempre tentando ajudar naquilo que a outra pessoa precisasse. Simplicidade, que exigiu dele viver dia a dia segundo a vontade de Deus.

O Ir. Iglésias deixou-nos o presente da sua humildade, que soube integrar e protagonizar nos acontecimentos da vida, porque ser simples consiste em descobrir o sentido de tudo o que nos acontece, ser capaz de analisar a história e sentirmo-nos parte dela. A pessoa simples é capaz de ver em tudo a marca de Deus.

S. Inácio de Loyola tem uma frase muito significativa para os crentes: “só Deus é Deus”. Por isso, a simplicidade que abraçou convencido o Ir. Iglésias supos deixar a Deus ser Deus, não pretendendo dar as respostas que só Deus pode saber. Só e exclusivamente: deixar que Deus faça parte da minha vida. E isso, implica deixar que o nosso coração seja propriedade dos pobres, espaço de fraternidade e sacramento vivo e autêntico de Deus. Simplicidade é a utopia que se faz realidade no dia-a-dia.

Ir. Iglésias, Portugal cativou o teu coração desde a tua juventude e tu cativaste o coração de muitos portugueses por isso, continuas a ser admirado e exaltado por eles.

O Ir. Iglésias, ao longo da sua vida, foi-se revelando de forma humilde, silenciosa, um escritor subtil, poeta acima de tudo, também cronista e relator da história lassalista em Portugal.

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