Crónica de uma homenagem em Abrantes – I
Luís Martins

O dia começou ao toque de um despertador barulhento, depois de uma noite que adormeceu tarde. Não podia falhar nem chegar atrasado ao compromisso. E este não era apenas um compromisso. Era muito mais. Por isso, o alarme tinha que tocar cedo. “São duas horas e quarenta minutos de viagem, de acordo com o google”, havia-me dito o José Alberto, no dia anterior, quando combinamos a hora de saída. Não gosto de pressas e acertei para as 6 horas da manhã em ponto na casa dele. E à hora certa, lá estava. Não me perdoaria chegar tarde à cerimónia, se me perdesse no caminho e ficasse sem tempo para recuperar.

Tinha feito o percurso há 46 anos – por outras estradas, que os tempos eram de parcimónia e não havia apoios da Europa -, uma única vez, de viatura, que ainda não podia conduzir por imaturidade e incompetência. Das outras vezes que me dirigi para lá e de lá para casa utilizei o comboio. Lembro-me de mudar no Entroncamento, de passar pelo castelo de Almourol, por Tancos. Sem experiência no itinerário, a minha melhor garantia para o sucesso na escolha das melhores estradas era o meu irmão José Alberto, também ele ex-aluno lassalista. Além de dominar a tecnologia GPS, conhecia relativamente bem a A13 e a A23 que havia percorrido já várias vezes por razões profissionais. A Lina, a minha esposa, acompanhou-nos. Gostava que ela conhecesse o colégio onde estudei – foi apenas um ano, mas muito intenso e decisivo – que me deixou saudades e que para alguém de lá dirigi algum do meu ressentimento.

Regressei de Abrantes em 1972, depois de um ano lectivo que, como disse, não me foi indiferente. O ano foi marcante porque concluía um ciclo – o antigo 5º ano do licéu – mas, sobretudo, porque o meu percurso lassalista, que tinha começado quatro anos antes, foi interrompido. Abruptamente. Sem que eu permitisse. Contra a minha vontade. Sem que pudesse fazer nada. Sem ser tido ou achado, tomando conhecimento da decisão através de uma carta cobarde e injusta. Parte do meu ressentimento ficou na carta e a outra parte na pessoa que a escreveu. Não ficou mais nenhum ressentimento, por pequeno que fosse, em qualquer outro lugar, coisa ou pessoa. Antes pelo contrário. Nutri sempre uma afeição especialíssima pela Instituição responsável por muito do que fui e sou e pelos professores que tive, pelos Irmãos que me ajudaram a crescer em conhecimento e espiritualidade. E aqui incluo não apenas os Irmãos que mantiveram a sua vocação ao serviço da educação de jovens, sobretudo, dos mais carenciados, mas também aqueles que haveriam de seguir, mais tarde e por razões diversas, um rumo diferente. Mas, a verdade, é que não consegui nunca fazer completamente o luto do episódio da dita carta. A Lina sabe disso e a minha família também. Para falar verdade, não sei se a minha vida seria hoje diferente se não tivesse recebido a tal missiva. Na altura, apesar das dúvidas que me inquietavam de quando em vez – quem não as tinha? -, alimentava o sonho de poder chegar longe na caminhada dentro da Congregação, que era ser irmão lassalista. Mas, não voltei a Abrantes. Fiquei revoltado e respondi ao remetente com muita mágoa. Recordo que também com uma fúria imensa, de quem se sente defraudado. Pior, atacado. A minha vida podia não ser diferente, mas preferia ter sido eu a decidir o que queria fazer dela. Ficava o luto feito. Sem traumas e sem ressentimentos.

Como o motivo principal desta crónica não era este lamento, dou um salto de mais de quatro décadas e meia em frente. Para o dia da inauguração da Praceta de São João Baptista de La Salle, um espaço localizado mesmo em frente ao antigo Colégio La Salle de Abrantes, hoje Escola Dr. Manuel Fernandes, com que a Câmara de Abrantes, na pessoa da sua Presidente, quis homenagear o fundador dos Irmãos das Escolas Cristãs, congregação mais conhecida por Irmãos de La Salle. Ainda no caminho que nos levaria ao destino, o José Carlos Ferreira, actual Presidente da Associação dos Antigos Alunos de La Salle, ligou para garantir que não tínhamos adormecido e que estaríamos presentes. A viagem correu bem e chegamos ainda cedo, um bom pedaço antes da hora que constava no programa do evento. Mas, não fomos os primeiros. Esperavam já nas imediações do espaço onde se realizaria o acto de homenagem, dois ou três antigos alunos. Não tardou a que se dirigisse à recepção, vindo já de dentro, o Director da Escola que fora em tempos o Colégio La Salle. E a pouco e pouco, juntou-se uma centena ou talvez mais de pessoas. Todos ex-alunos do Colégio, alguns deles com as suas esposas, vários Irmãos Lassalistas, outros ex-Irmãos e vários ex-alunos lassalistas.

Levava expectativas. Elenco algumas, sem a pretensão de as ordenar por importância: revisitar Abrantes; encontrar colegas da altura; rever o antigo Colégio La Salle; estar presente numa cerimónia pública de homenagem aos Irmãos de La Salle; e encontrar professores da época.

(continua)

Luís Martins
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